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Uma autobiografia · Londres, 2026

A Inabalável
Luz de Felipe

Uma Odisseia de Resiliência entre Mundos

"Há chamas que o vento não alcança."

Felipe Oliveira

Três travessias do oceano. Vinte e seis capítulos.
Uma luz que não apagou.

A voz de quem viveu

Aprendi a temer uma faca antes de aprender o alfabeto. Conheci o silêncio antes da minha própria voz, e o escuro antes da luz.E, ainda assim, a luz não me deixou.

Uma carta real

A carta que virou abrigo

Até pouco tempo atrás, havia um jovem sem teto atravessando Londres com tudo o que possuía: uma bengala, um implante e uma teimosia de continuar vivo. Ninguém sabia. Ninguém via. Foi assim — num fim de tarde qualquer, num corredor de supermercado — que o acaso o colocou diante de um antigo professor. O acaso fez o encontro. O professor fez o resto: sentou e escreveu. Como diz o próprio Joe:

Londres · outubro de 2022 · carta enviada a um membro do Parlamento britânico

“Por absoluto acaso, encontrei um ex-aluno meu, completamente surdo e cego, num supermercado, a caminho de casa. Ele estava sem-teto, tentando chegar à delegacia de polícia.”

“A mãe pediu que ele voltasse ao país — e, semanas depois, o pôs para fora de casa. O pai conversa com ele, mas não está disposto a ajudar de nenhuma forma material.”

“Ele já tinha procurado o conselho por conta própria: um concluiu que a responsabilidade era de outro distrito e o mandou embora com uma carta na mão; o outro disse que não podia ajudar por causa do status de imigração — e o pôs para fora às cinco da tarde, na hora de fechar.”

“Nós o levamos ao conselho mais uma vez, para lutar pelo caso. Eles se recusaram a ajudar — além de telefonar para os pais dele, que de novo se recusaram a recebê-lo.”

“Ligamos para todas as instituições e abrigos, contatamos igrejas e a comunidade — há muita ajuda com comida e conselhos, mas nenhuma com um teto.”

“Eu não posso simplesmente deixá-lo na rua para morrer. Então vou garantir que isso não aconteça.”

“Temos aqui um jovem incrivelmente vulnerável — genuinamente notável, resiliente — sem-teto. E parece que o sistema só agiria por ele se ele fosse atropelado. Este é um jovem que pode contribuir com a nossa sociedade, mas que precisa de ajuda.”

— Joe Shepherd, ex-professor de Felipe

Um ano depois, Joe escreveu de novo: “Ele continua sendo um jovem incrível.”

A obra

Uma vida inteira, da escuridão à luz

A autobiografia de Felipe Oliveira — surdocego, brasileiro, sobrevivente. Uma vida que atravessou três vezes o oceano em direção a Londres, e que só na terceira conseguiu, enfim, ficar.

4

Aos quatro anos, segurou os dedos abertos sobre uma mesa enquanto o pai posicionava uma faca sobre as suas unhas.

12

Aos doze, o pai cruzou o oceano prometendo o mundo: escolas, hospitais, um futuro. A guarda foi assinada sem que ninguém lhe perguntasse nada. Mas, atrás daquela porta, a casa virou um lugar de obedecer e temer, onde uma criança vivia em alerta o tempo todo. E cada chave girando na fechadura virava um aviso.

15

Aos quinze, no resgate da polícia, sem palavras em inglês, levou a mão ao próprio pescoço para que entendessem o que vivera.

17

Aos dezessete, ele era apenas um nome num documento de tribunal — sem voz, embora já pudesse ser ouvido. A própria mãe jurou que ele não tinha como ficar no Reino Unido, e o mandou para o outro lado do mundo: só por dois anos, pelo seu bem. Era mentira. Ele sempre teve o direito de ficar — e levou anos para descobrir que a única pessoa em quem confiava o havia manipulado.

19

Aos dezenove, atravessava a cidade sozinho, de bengala, para trabalhar no caixa do Atacadão — e à noite ainda vendia as trufas da avó pelos restaurantes do bairro. Sofreu um assalto que o deixou um mês sem ouvir, e voltou ao trabalho mesmo assim. Lá dentro, subestimaram-no e negaram-lhe a chance de crescer. Ele não discutiu. Apenas, em silêncio, foi juntando cada moeda — e construindo a própria porta de saída.

23

Aos vinte e três, dormiu numa cama paga por dois estranhos que o tiraram de um McDonald's no meio da noite em Londres.

24

Aos vinte e quatro, atravessou as portas do New Horizon — e, pela primeira vez, encontrou um lugar inteiro disposto a ajudá-lo a recomeçar. Foi ali que a vida começou a mudar.

26

Aos vinte e seis, tem um lar só seu, em Londres, com uma porta que fecha com a sua própria chave. A casa é pequena — não é mansão de milionário — mas tem espaço para o amor e para os amigos, e é só com isso que ele se importa. Foi ali, enfim seguro, que ele transformou tudo o que viveu em livro, em música, em luz. Não é o fim da história. É a primeira página escrita em paz.

  • travessias do oceano
  • capítulos
  • palavras
  • de visão
  • de verdade
Sinopse

A história de uma luz que se recusou a apagar

Esta não é uma história sobre a dor. A dor está aqui — não há como contar uma vida assim sem ela. Mas a dor não é o ponto. O ponto é o que continua aceso depois que ela passa.

Um menino brasileiro, que foi perdendo a visão e a audição ainda na infância, e que mesmo assim aprendeu a ler o mundo pelo toque, pelo som, por aquilo que ninguém mais reparava. Entre o interior do Brasil e as ruas de Londres, ele atravessou o oceano mais de uma vez atrás de um lugar onde, enfim, pudesse ficar — e perdeu quase tudo no caminho, menos uma teimosia silenciosa que escuridão nenhuma conseguiu vencer.

É também a história de quem veio antes dele: uma linhagem de mulheres que transformou pouco em sustento e medo em coragem, e que o segurou pela mão quando o chão sumia debaixo dos pés.

Foi nessa mão que a chama começou. E foi sozinho, do outro lado do mundo, que ele aprendeu a carregá-la.

A Inabalável Luz de Felipe é a história de como se sobrevive a tudo isso — e, ainda assim, se chega inteiro do outro lado.

Apoiado em dezenas de relatórios médicos do St George's Hospital e atas oficiais dos conselhos de Sutton (London Borough of Sutton) e de Croydon, além dos processos da Family Court de Croydon, este livro não é apenas memória: é prova documental irrefutável.

A prova

A história que os carimbos contam

Deixa eu te mostrar uma coisa que quase ninguém vê. A minha vida foi escrita por mãos que eu nunca vi: boletins, atas, protocolos. Cada dor ganhou um número — e cada número, uma gaveta.

Se você abrisse essas gavetas, encontraria um caso. Páginas e páginas falando de mim como quem fala de um processo. Não de um menino.

Mas escuta: um dia, a tinta mudou de lado.

O mesmo sistema que me arquivou, me reconheceu. E o carimbo que desceu sobre aquele papel não fez som de burocracia — fez som de porta se abrindo. Eu quero que você ouça esse som comigo.

Permanência
concedida

Este livro é a minha assinatura por cima de todos os carimbos.
Os papéis contaram um caso. Eu vou te contar a vida. Vem.

O oceano, três vezes

As três travessias

Mapa das três travessias do oceano Atlântico, de Ribeirão Preto, no Brasil, a Londres: a primeira em 2004, a segunda em 2012, e a terceira, definitiva, em 2022. I · 2004 II · 2012 III · 2022 — a que ficou Ribeirão Preto Londres
  • I

    Fui levado

    Na primeira, eu era pequeno demais para escolher. Atravessei o oceano no colo de uma decisão que não era minha.

  • II

    Fui prometido

    Na segunda, atravessei atrás de uma promessa: escolas, médicos, futuro. Do outro lado, a promessa tinha fechadura — e eu vivi do lado de dentro dela.

  • III

    Fui eu

    Na terceira, atravessei sozinho: uma mala, uma bengala e uma teimosia que oceano nenhum afoga. Dessa vez, ninguém me trouxe. Eu vim. E fiquei.

Três travessias. Um só destino:
chegar inteiro.

Leia um trecho

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As raízes

A linhagem das mulheres que sobreviveram

Antes de Felipe, havia Matilde. E antes de Matilde, havia Doralice — a bisavó que criou oito filhos praticamente sozinha e atravessou o Brasil em busca de sobrevivência.

Foi a avó Matilde quem fritava os salgados ao raiar do dia para criar o neto com dignidade, quem largou o conforto por fidelidade à própria fé, e quem ficou — firme — quando quase todos já tinham ido embora.

É dessa corrente de mulheres — mãos que seguraram outras mãos — que nasce a luz que atravessa todo o livro.

A travessia

Quatro partes, uma só luz

Vinte e seis capítulos que vão das raízes na favela de Ribeirão Preto até a liberdade conquistada num apartamento em Londres.

Parte 1

As Raízes

A bisavó, a avó, e a casinha na favela onde a história inteira começa.

♪ Trilha desta parte: Mãos de Ouro, Coração de Vó
Parte 2

Queda e Transformação

O resgate, o silêncio que tinha prazo de validade e o som que voltou.

♪ Trilha desta parte: A Luz que Insiste
Parte 3

O Exílio e o Retorno

A espada de luz, o trabalho que salvou e a travessia de volta.

♪ Trilha desta parte: Estrada Afora
Parte 4

A Luz Inabalável

As portas que se abriram, um teto sobre a cabeça e a liberdade em W12.

♪ Trilha desta parte: O Horizonte que Eu Escolhi
Esta é a minha história. E, pela primeira vez, sou eu quem a conta.
— Prólogo
A jornada

A luz, ano a ano

1999

A origem

Felipe nasce em Ribeirão Preto. A primeira faísca.

2015

O resgate

Aos quinze anos, em Sutton, a polícia britânica o tira da casa do pai — o fim de um pesadelo e o início de outra vida.

2016

O som

Uma cirurgia em Londres entrega a Felipe algo que ele nunca tinha tido por inteiro: o mundo com volume.

2017

O exílio

Enviado de volta ao Brasil com uma promessa falsa, Felipe passa cinco anos vendendo trufas nas ruas — e construindo, sozinho, a própria saída.

2022

A terceira travessia

O retorno a Londres. Rejeitado pela mãe, após passar a noite no McDonald's em Londres, é salvo por estranhos e pelo ex-professor Joe Shepherd, iniciando a luta pela permanência legal.

2025

O reencontro

Pela primeira vez, Felipe atravessa o oceano por escolha. À meia-noite, bate na porta da avó em Ribeirão Preto — e o susto vira o abraço que esperou três anos. É dessa viagem que nasce este livro.

2026

A casa

Uma porta com a sua própria chave, em W12, Londres. Pela primeira vez, um lugar que ninguém pode tirar.

Entre dois mundos

De Ribeirão Preto a Londres

Dois lugares, um oceano no meio. O cheiro de salgado quente subindo do isopor da avó; a chuva miúda das calçadas de pedra de W12.

Ribeirão Preto

O sol, a favela e o abraço de uma avó — o ponto de partida de tudo.

Londres, W12

A chuva, a bengala verde lendo a pedra, e finalmente uma casa que não pertence a ninguém que possa ameaçar.

O símbolo

A bengala verde — uma espada de luz

Por muito tempo, a bengala parecia uma muleta — algo que iria marcá-lo para sempre. Aceitá-la foi admitir, primeiro a si mesmo, uma verdade difícil.

Foi a Adevirp, em Ribeirão Preto, que lhe entregou a bengala e ensinou a usá-la. Com o tempo, ela deixou de ser muleta e virou o oposto: a luz que lê o chão antes de cada passo.

Hoje, o som dela tocando a pedra de Londres é um som de liberdade — de quem decide, sozinho, para onde ir.

As ferramentas

As ferramentas da liberdade

Objetos simples que, um a um, foram abrindo caminho — cada um deles uma peça exata no quebra-cabeça de uma vida.

Os salgados da Matilde

A massa selada com a pressão dos polegares — o sustento e o colo onde a luz nasceu.

O implante coclear

O volume da vida, baixado aos poucos — e enfim de volta.

O leitor de tela

O TalkBack lendo o mundo em voz alta — a tecnologia que me devolveu a autonomia.

Os documentos

A prova de que tudo aconteceu — em papel timbrado.

A música

Transformar a dor em canção.

As palavras escritas

As ferramentas que faziam a ponte quando a audição de Felipe falhava: o computador com a tela ampliada, a lupa digital que aproximava cada letra pequena, e o quadro branco escrito com caneta escura — cada um deles um jeito de transformar o silêncio em palavras.

A chave da Matilde

A chave que a avó lhe deu em 2018, quando ninguém mais o queria — e que ele nunca devolveu. Era mais do que uma chave: era a prova de que ele tinha um lugar no mundo.

Os atores

Os que abriram portas

Numa vida assim, ninguém atravessa sozinho. Houve mãos estranhas que se abriram sem precisar — pessoas que escolheram a bondade quando a bondade não era exigida nem recompensada.

O Joe, que acolheu um rapaz sem teto como família escolhida. A senhora angolana e a Isabela, que abriram a porta de casa. O brasileiro que cruzou com ele em King's Cross e o levou até o New Horizon sem nem saber o seu nome. E a Ana, do New Horizon, que ao falar com ele em português e oferecer um simples copo de café, fez desabar anos de espera — e devolveu a sensação de ser cuidado sem precisar implorar por isso.

Cada um abriu uma porta onde o mundo só oferecia paredes — e seguiu o seu caminho sem saber que tinha mudado um destino.

Depoimentos

Vozes de quem viveu junto

“Quando a turma se reunia pra assistir Chiquititas, você sentava com o rosto colado na televisão, e às vezes perguntava o que o personagem tinha acabado de dizer. Mas, pra gente, isso nunca te fez diferente. Você era só mais um da turma — o mais animado de todos, na verdade.”
— Letícia, amiga de infância
“Se alguma vez existiu alguém que merecesse uma chance e uma mão estendida, é este jovem surdo e cego que já lutou e sofreu tanto — e que, ainda assim, conserva um jeito gentil, alegre e positivo.”
— Joe Shepherd, ex-professor
“Fiquei genuinamente impressionado com o quão independentemente você vivia. Você usava muito bem a tecnologia, e fiquei particularmente impressionado com a confiança com que você conseguia encontrar o caminho, mesmo em lugares novos.”
— Stephan, da casa de Chiswick
“Aprendi que pessoas com dificuldades visuais e auditivas como as tuas não são, nem devem ser, definidas só por isso. O mundo precisa de mais pessoas como eu e tu, para ensinar que as tuas dificuldades não são impedimento para nada na vida.”
— Ana, do New Horizon
“A vida raramente segue o roteiro que a gente imagina. Quase sempre, os melhores caminhos surgem das curvas, dos encontros inesperados. Não tenha medo de mudar de ideia, de recomeçar, ou de admitir que ainda está aprendendo.”
— Flávio, o amigo do mercadinho brasileiro
A quem este livro pertence
Para quem precisou ser forte cedo demais — esta luz também é sua.
Sobre o autor

Felipe Oliveira

Nasceu em 17 de julho de 1999 em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. A sua ligação com o Reino Unido começou cedo — e, depois de muitas travessias, fixou-se em Londres, no bairro de W12, em 2026.

É portador de Atrofia Óptica Bilateral, com visão residual de cinco por cento, e de uma condição auditiva tratada com implante coclear realizado no St George's Hospital em 2016 — a cirurgia que lhe devolveu o som do mundo.

Além de escritor, é compositor: escreve músicas como mais uma forma de transformar a sua experiência em arte. Hoje dedica-se à sua autonomia, à sua paz e a um futuro voltado a ajudar outras pessoas a atravessarem o que ele atravessou. A Inabalável Luz de Felipe é o seu primeiro livro.

Curiosidades

Perguntas que sempre me fazem

Como você escreveu um livro inteiro sendo surdocego?
Com três coisas: a memória, os papéis e as ferramentas do meu tempo. Eu reuni os documentos oficiais da minha vida — boletins de ocorrência, relatórios médicos, atas dos conselhos, processos do tribunal — e fui montando as narrações junto com as minhas memórias: eu conto o que vivi, e os papéis confirmam cada data e cada fato. Na edição, a inteligência artificial me ajuda — como um bom editor ajuda qualquer autor. O que ela não faz é inventar, porque a minha história não é inventada: cada memória é minha, cada decisão é minha, e cada frase passa pelos meus ouvidos, quantas vezes for preciso, até soar viva. As ferramentas me ajudaram a escrever — mas a história, ninguém viveu por mim.
Como você usa o celular?
Todo smartphone já vem com recursos de acessibilidade — é só ativar nas configurações. No meu, eu uso o TalkBack: um leitor de tela que fala em voz alta tudo o que aparece — mensagens, botões, páginas — e eu navego por toques e gestos. Para escrever no teclado, eu toco numa letra, escuto qual é, e confirmo com um toque duplo. Mas, na maior parte do tempo, uso o ditado por voz: eu falo, e o teclado escreve sozinho, rapidinho. O que para muita gente é só um aparelho, para mim virou os meus olhos: é com ele que eu leio, escrevo, me localizo na rua e converso com o mundo — e foi com ele que eu escrevi este livro.
Como você reconhece as pessoas?
Pelo perfume e pela voz. Cada pessoa tem uma assinatura no ar — o cheiro que chega antes do "oi", o jeito único de falar. Quem eu amo, eu reconheço de longe, antes mesmo de ouvir o nome. O rosto eu não vejo; a presença, eu nunca esqueço.
Como você atravessa Londres sozinho?
Com a bengala verde numa mão e o celular na outra, me guiando por voz. Nos semáforos, um pequeno cone tátil embaixo da caixinha do botão gira quando é seguro atravessar — eu sinto com a mão. No ônibus, uma voz anuncia cada parada. E no metrô, um funcionário me guia até o vagão e outro me espera na chegada. No Brasil, eu já tinha aprendido a andar sozinho. Mas foi Londres que multiplicou a minha independência — e é por isso que eu a chamo de casa.
Você tem raiva de quem te machucou?
Não é raiva o que eu sinto hoje. É distância. A raiva existiu — e por muito tempo ela morou em mim, pesada, cobrando aluguel. Mas eu aprendi uma coisa que mudou tudo: a gente pode entender a história de alguém, até desejar paz para essa pessoa — e, mesmo assim, nunca mais abrir a porta. Perdão e proximidade são coisas diferentes. O perdão, eu dei — porque ele me libertou, não a eles. A proximidade, não — porque hoje a porta da minha casa tem a minha própria chave, e escolher quem entra é a liberdade que ninguém mais me tira. O resto dessa resposta está no livro, capítulo por capítulo.
O que é ser surdocego? Você não ouve e não vê nada?
Muita gente imagina escuridão total e silêncio total — mas surdocegueira quase nunca é isso. Ser surdocego é viver com perda nas duas portas principais do mundo, a visão e a audição, ao mesmo tempo — cada pessoa no seu grau. No meu caso: eu escuto, sim — graças ao implante coclear, que me devolveu o som em 2016. Com ele ligado, eu converso, ouço música, escuto os anúncios do ônibus; sem ele, o mundo fica no mudo. E eu enxergo um pouco: cerca de cinco por cento no olho direito, o suficiente para ver de perto, sem nitidez; o esquerdo é bem mais fraco. Quer sentir como é? Imagina assistir à vida numa televisão antiga: a imagem embaçada, chuviscando, e o volume oscilando — às vezes presente, às vezes sumindo. Agora imagina atravessar uma rua assim. Fazer compras assim. Procurar emprego assim. É por isso que a surdocegueira não é a soma de duas faltas — é uma condição única: quando os dois sentidos falham juntos, um não consegue socorrer o outro. Quem só não enxerga, escuta o mundo; quem só não escuta, lê o mundo com os olhos. A gente aprende a fazer as duas coisas por outros caminhos: o toque, o cheiro, a vibração, a memória. E mesmo assim: eu trabalho, viajo, componho, atravesso Londres sozinho e escrevi este livro. Surdocego não é sinônimo de mundo fechado. É outro jeito de estar no mundo — e o meu está bem aberto.
Você enxerga alguma coisa?
Tenho Atrofia Óptica Bilateral. No olho direito, tenho cerca de cinco por cento de visão: de perto, consigo ver uma pessoa — até o rosto dela —, mas sem nitidez, como uma fotografia desfocada. Já o olho esquerdo é bem mais fraco: praticamente só vultos e luz. Mas visão não é só olho. Eu enxergo com as mãos, com os ouvidos, com o nariz, com a pele. Enxergo pouco com os olhos — e muito com todo o resto.
Por que o livro se chama "A Inabalável Luz de Felipe"?
Me chamaram de menos a vida inteira. O preconceito apagava a luz; o desprezo fechava a porta; o abandono me deixou na rua, e a violência quis apagar o resto. O mundo inteiro apostou no escuro. Mas dentro de mim morava uma chama que ninguém tinha visto direito. Pequena, teimosa, dessas que se escondem do vento para continuar queimando. Ela atravessou cada tempestade — e fez o impossível: não apagou, e não azedou. Saí do outro lado sem coração ruim, com a mão ainda estendida e o riso ainda vivo. O fogo que atiraram para me queimar, eu recolhi — e fiz dele lareira. Inabalável não é a luz que nunca tremeu. É a que tremeu inteira — e ficou. E "de Felipe" é o final da história: depois de anos sendo número na boca dos outros, a luz ganhou dono. E o dono escreveu o nome na capa.
O que você espera deste livro?
Não é fama, nem vingança, nem pena — pena é a única coisa que eu devolvo na porta. O que eu espero é que este livro chegue como uma mão no escuro. Que uma mulher presa numa casa perigosa leia a história da Matilde e descubra que a porta existe. Que um menino que apanha em silêncio descubra que tem número para ligar e adulto capaz de ouvir. Que alguém perdendo a visão descubra que bengala não é o fim — é espada. Que pais de uma criança surdocega vejam no meu nome um futuro possível para o filho. E que quem estiver no fundo do poço descubra o que eu descobri lá: que tem luz até ali. Se este livro salvar uma pessoa que seja, cada página de dor terá valido a pena. Eu não escrevi para contar o que sofri. Escrevi para devolver a corda que me jogaram.
A canção que fecha o livro

A Luz que Insiste

"Você tem amor, mesmo esquecido.
Você tem fé, mesmo na dor.
Há uma luz dormindo no teu peito:
acende, e atravessa com amor."

Versão em português
Versão em inglês · English version

O Horizonte que Eu Escolhi

"A luz que eu sinto não vem do olhar —
é força interna que faz caminhar."

Ouça a música completa

Mãos de Ouro, Coração de Vó

"Sua mão calejada, meu porto, meu chão —
moldando a massa e o meu coração."

Ouça a música completa

Estrada Afora

"Cada dor que senti me ensinou a ser inteiro —
e cada cicatriz virou luz no meu roteiro."

Ouça a música completa

© 2026 Felipe Oliveira. Todas as músicas e letras são de autoria de Felipe Oliveira. Reprodução, cópia ou uso não autorizado é proibido.

No coração da escuridão, encontrei Deus — e Ele é Luz.

A obra

A luz, em suas mãos

Uma história que atravessou dois mundos — e chegou até aqui.

O livro está a caminho 💚

Para todos

Acessibilidade — uma porta sempre aberta

Como autor surdocego, sei o quanto pesa uma porta fechada. Por isso quis que a minha história pudesse ser sentida por qualquer pessoa — com ou sem deficiência.

Leitores de tela

O site foi construído pensando em quem navega ouvindo: marcos de navegação claros, títulos bem organizados e um atalho para pular direto ao conteúdo.

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Todas as ilustrações têm descrição em texto, para que nada da atmosfera da história se perca.

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Em breve

Seja o primeiro a saber

A Inabalável Luz de Felipe está chegando. Guarde o seu lugar: avise-me e você estará entre os primeiros a receber a data do lançamento — e as novidades da obra.

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Há uma luz em cada página deste livro.
Às vezes a chamei de coragem.
Às vezes, de esperança.
Muitas vezes não a chamei de nada.
Mas o nome dela sempre foi um só — Deus.
Porque a luz nunca foi minha: foi Ele quem a deu.